O valor universal da água, no que diz respeito à sobrevivência da Humanidade e à importância que tem por exemplo para as questões energéticas e da regeneração do corpo, obriga a que cada um de nós deva tomar esse recurso como finito e o preserve em todas as formas de utilização. As cidades que o têm como recurso económico e identitário devem saber potenciá-lo como desenvolvimento, contribuindo assim para o desígnio universal. Este é um espaço de estas e de outras águas. De todas as águas.

2010-08-12

Há 20 Anos, um Mar de Esperança

Imagem: Dmitriy Shostakovitch, official postcard

Hoje é o Dia Internacional da Juventude. A este propósito, é bom lembrar o primeiro dos grandes projectos comemorativos dos Descobrimentos Portugueses, que foi lançado, há 20 anos, pela Comissão Nacional para as Comemorações dos Descobrimentos Portugueses, desafiando as autarquias portuguesas a realizarem um concurso literário entre os jovens até aos 25 anos. O objectivo foi juntar no “Cruzeiro Europa Jovem” um representante de cada concelho, através do concurso subordinado ao tema “Descobre a Tua Terra”, também a propósito do Ano Europeu do Turismo. Tive o grato prazer de ter sido escolhido como representante das Caldas da Rainha, para uma memorável viagem de partilha dos aspectos que uniam os jovens portugueses nesse tempo.
Eu acabara no Verão desse ano o curso de Arquitectura. Concorrera com um texto onde propunha um percurso pelos aspectos históricos e culturais do centro urbano das Caldas, captando o pormenor ou chamando a atenção para as praças e as ruas, nunca deixando de referir os actores principais da urbanidade, que são afinal as pessoas que melhor traduzem a história e a vida de um lugar. Já nessa altura, este centro urbano era questionado acerca das suas memórias versus novas intervenções.
O "Cruzeiro Europa Jovem" reuniu, de 22 a 28 de Agosto de 1990, mais de 300 jovens do continente e ilhas, bem como convidados que representaram as associações juvenis e as juventudes partidárias. A viagem decorreu a bordo do paquete soviético Dmitriy Shostakovich, cuja tripulação era originária daquele pais, num mundo estranho e desafiante no meio do mar, entre Lisboa, Casablanca, Las Palmas e Funchal.
O nome provém do compositor russo (1906-1975) que apesar de trabalhar para o governo estalinista sofreu deste a opressão e diversas tentativas de censura, continuando a lutar pela independência artística até ao fim da sua vida. Sem dúvida, um bom tónico para nós que tínhamos alcançado, por via das artes da escrita, este cruzeiro e esta viagem.
No cais da Rocha do Conde de Óbidos, à partida, as famílias juntaram-se. Vinham de todos os lados do país para assim se despedirem daqueles para os quais, certamente numa grande parte, era a sua primeira grande viagem, a viagem inaugural e iniciática de umas quantas coisas. A primeira imagem, logo após a entrada no navio, era a que nos juntava nos varandins, acenando, quais tropas viajando para as ex-colónias, mas com diferenças: em vez da guerra, a folia, e o “adeus até ao meu regresso” era daí a uma semana.
Logo que o navio descolou, outro ritmo de vida começou. Difícil era estar em todo o lado: a discoteca, o salão de dança, os debates, o cinema, os jogos, o exterior a ver-o-mar e as estrelas ou a dar um mergulho na piscina. Tudo menos a dormir, porque o tempo convidava a muito do novo que esta experiência permitia. As noites eram sempre longas.
Havia o perigo de os painéis de reflexão e debate poderem vir a ser pouco frequentados, mas não. Os temas para os jovens, oriundos de um país, todo ele, ali representado, eram suficientemente interessantes: os Descobrimentos, a Europa, a política e o futuro de Portugal. Lembro que, nos debates de há 20 anos, foram postas questões que revelaram preocupações que acabariam por se concretizar: “O que é que nos vai acontecer em termos profissionais, quando em 1993 se abolirem as fronteiras europeias? Precisaremos depois de emigrar para arranjar emprego? Será que os jovens vão ser ouvidos? O que é afinal a política?”
O mundo hoje em dia é diferente, mais global, e os interesses mudaram, o que por si só faz perigar os níveis de participação cidadã e pública. Esta mudança acaba até por fazer esquecer os problemas de há duas décadas, por exemplo as manifestações de jovens contra as políticas governamentais, nomeadamente na área da educação.
Entretanto, muitos dos participantes talvez já tenham tido alguma experiência política; eu, por mim, já tenho a minha conta, não sei se por agora, ou definitivamente, porque a política é mesmo a arte efémera.
Confesso que também a memória já se me escapa de pormenores sobre a experiência de há 20 anos no alto mar, dado que a vida tem dado muita volta. Consta que havia um padre a bordo, mas não dei por ele, ou pelo menos já dele me não lembro. Reza noutras crónicas que afirmou que, passada uma década, a humanidade estaria muito mais equilibrada. Mas passaram duas e acho que não.
As escalas deste cruzeiro serviram para conhecer ou reconhecer as cidades do itinerário. O porto e os cheiros de Casablanca, as ruas hispânicas de Las Palmas, a exuberância do Funchal, de que a chegada por mar ainda hoje se tornou inesquecível, apesar de previamente termos passado um troço de mar bastante ondulante que nos fez indispostos a todos. A chegada a Lisboa foi antes das 7 da manhã, depois de uma noite quase sem pregar olho, se bem me lembro! O Sol nasceu, quando se vislumbrou a terra, onde nos esperava quem estivera no primeiro dia.
Este cruzeiro foi essencialmente virado para dentro, para as pessoas que se conheceram e conviveram durante uma semana, como se não mais a vivêssemos, assim, ou jamais nos pudéssemos voltar a ver.

Assim foi, até hoje!

12 de Agosto de 2010
Dia Internacional da Juventude

13 comentários:

  1. eu fui nesse cruzeiro, foi uma experiência espectacular, não de importava de reunir novamente o mesmo grupo para matarmos saudade, que giro que seria.........

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  2. Olá Adelaide. E memórias escritas e fotográficas dessa viagem?

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  3. Que saudades! Eu tb fui, mas infelizmente, não tenho uma única foto...só um filme, coma a "excelente" qualidade da época!
    Sandra Isabel

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    1. Olá Sandra Isabel. E se o filme for copiado para vídeo, podias enviar para vermos? Qual o concelho que representaste? Queres enviar um contacto, por favor?

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  4. Olá a todos. Eu também estive presente em representação de Paços de Ferreira.
    Alberto Gomes.

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  5. Olá Alberto. Queres enviar um contacto teu? Tens memórias fotográficas?

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  6. Olá boa tarde! O meu nome é Joaquim Pedro. Talvez já não se lembrem de mim mas estive convosco pois era o responsável pelo Grupo Média, o mentor e organizador do Cruzeiro Europa Jovem bem como de outros que se realizaram antes e depois deste. Tenho muitas fotografias e contactos de outros partipantes e gostava de ajudar a dinamizar este blog. Já me registei mas de qualquer forma fica aqui o meu e:mail: jjbpedro@gmail.com.
    Um forte abraço e até breve.

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  7. Olá Joaquim Pedro. Vamos a isso! Vou também enviar-te um email para tentarmos então um reencontro do grupo desse ano (1990), por que não em 2015, perfazendo 25 anos?

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  8. Eu também fui, que saudades!! A ideia do reencontro é excelente, vamos a isso!
    Joaquim Dantas
    reservas@habitatnatural.pt

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  9. estive por...Torres Novas! inesquecível! era dos mais novos, tinha ainda 16 anos! Que aprendizagem!

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  10. Só para dizer que neste momento já decorrem inscrições relativamente ao Cruzeiro que estou a organizar para 2018. Neste momento estão já mais de 120 participantes inscritos.

    Um forte abraço

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  11. Caro Joaquim Pedro, esse é com gente desse nosso outro cruzeiro de 1990? Abraço.

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