O valor universal da água, no que diz respeito à sobrevivência da Humanidade e à importância que tem por exemplo para as questões energéticas e da regeneração do corpo, obriga a que cada um de nós deva tomar esse recurso como finito e o preserve em todas as formas de utilização. As cidades que o têm como recurso económico e identitário devem saber potenciá-lo como desenvolvimento, contribuindo assim para o desígnio universal. Este é um espaço de estas e de outras águas. De todas as águas.

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2012-05-29

Centenário do Turismo em Portugal




"O perfeito é desumano, porque o humano é imperfeito" (Fernando Pessoa)

O Ciclo Comemorativo do Centenário do Turismo em Portugal concluiu-se, pelo que, de novo "ao encontro das águas", apenas com mais este contributo, em solidária parceria com http://centenariodoturismo.blogspot.pt/, este um novo blogue de mensagem única.

Única, porque escrita e publicada no final do mês de encerramento das comemorações do Centenário do Turismo em Portugal, com o objectivo e o dever pessoal de publicar, num contexto à parte da Comissão Nacional e com este registo, uma síntese do balanço desse encerramento, cuja Festa aconteceu - Memorável - no passado sábado, em Aljustrel, no Alentejo.

Memorável, quanto a generosidade e simplicidade com que foi concebida, trabalhada, vivenciada.

Memorável, pela presença dos Cidadãos, de Aljustrel e de muitas outras partes do país.

Memorável, pela inauguração de mais uma unidade de alojamento rural e o anúncio de outras mais para Aljustrel.

Memorável, pela singularidade da sessão solene, desde os tributos da Comissão Nacional ao Instituto do Turismo de Portugal e a Brito Camacho, à Conferência por uma das mais brilhantes alunas de Turismo do país e à actuação dos Grupo de Metais da Filarmónica de Aljustrel.

Memorável, pelo desfile do Cante Alentejano, com tantos grupos que se juntaram nas ruas da vila mineira.

Memorável, pelo espectáculo de raiz alentejana, realizado na pedreira das minas e concebido a propósito, juntando nomes com ligações profundas ao Alentejo, como Ana Vieira, António Zambujo, Francisco Naia, Luís Saturnino, Nova Aurora e Vitorino.

E, nesta hora, interessa agradecer aos que, generosamente, construíram durante mais de um ano um programa oficial, sólido e substancial, sem que para tal fossem necessárias verbas exorbitantes. Foi de pequenos apoios ou patrocínios que se congregaram todas estas pessoas e entidades públicas e privadas em volta de uma ideia e da sua realização.

Foi necessário espírito de iniciativa e empreendedor. Afinal, um dos fundamentos do Turismo.

Obrigado.
Jorge Mangorrinha


Discurso na Sessão Solene

A Comissão Nacional do Centenário do Turismo em Portugal propôs-se celebrar os cem anos de turismo na orgânica do Estado e conseguiu. A motivação pela adesão de mais de uma centena e meia de entidades públicas e privadas, a confiança que merecemos do Governo de Portugal, o Alto Patrocínio do Presidente da República e a coesão entre os elementos executivos da Comissão Nacional, a que tenho a honra de presidir, foram os fundamentos para aquilo que construímos como programa oficial, diverso, participado e, devo dizê-lo com maior sublinhado, um programa aberto a todo o país. Um dos nossos lemas foi: “o turismo não deve ter fronteiras”.

Desde a ideia, que debatemos há cerca de quatro anos designadamente em sede do Instituto Turismo de Portugal, até aos passos que se seguiram a partir da confiança que o Governo de Portugal depositou em nós, esta missão tem tido algumas singularidades que, neste momento, temos de expressar e partilhar convosco, até porque são sinais que podem servir de referencial para o que todos quisermos entender no nosso caminhar futuro.

Comemorar cem anos de turismo organizado em Portugal é lembrar o passado com um olhar no presente e futuro.

Portugal foi das primeiras nações a enveredarem, desde 1911, pela institucionalização governamental do turismo, a par da Áustria e da França. No mesmo ano, a Sociedade Propaganda de Portugal, constituída por monárquicos e republicanos, católicos e maçons, trouxe para Portugal a realização de um Congresso Internacional de Turismo. Veja-se como, já nesse tempo, o turismo era abrangente e transversal a diferentes opções humanas.

O Governo republicano vê uma oportunidade para se afirmar aos olhos da Europa e apoiou decisivamente esse congresso, que teve um enorme sucesso.

Manuel de Brito Camacho assumiria o Turismo no seu Ministério do Fomento. E, como sabemos, a ele se deve parte da escolha conjunta em nos juntarmos hoje em Aljustrel para esta Festa de Encerramento das comemorações.

O Alentejo que em Brito Camacho sempre esteve presente. O Alentejo que nestes cem anos foi terra de dificuldades, coragem e trabalho, e é hoje um território aberto ao melhor do turismo e, também por isso, nos orgulhamos de aqui estar, até porque – permitam-me uma nota particular – também neste ano faria cem anos o meu avô materno, por feliz coincidência nascido e vivido neste concelho. O Alentejo teve, em 2011, o melhor ano turístico de sempre. A assinatura “O Alentejo dá-lhe tudo” é uma verdade. Também dá uma Festa de Encerramento do Centenário do Turismo em Portugal.

Alentejo é o Património do Tempo. Permitam-me desejar que seja este o Tempo da Utopia. O Tempo para pensar e reflectir. O Tempo para escrever. Quiçá para escrever o futuro.

Mas não há futuro sem passado. E, neste, houve quem escrevesse as linhas das utopias de um tempo histórico feito de tempos diferentes. Uma história feita essencialmente de pessoas que acreditaram que Portugal tem condições para, com o turismo, se afirmar no mundo.

Um nome foi essencial nos primeiros tempos: Leonildo de Mendonça e Costa, diretor da Gazeta dos Caminhos de Ferro, fundador da Sociedade Propaganda de Portugal e um dos mais profícuos apaixonados pela viagem e pelo turismo. A ele se deve, por exemplo, o Manual do Viajante em Portugal.

Os primeiros tempos foram de utopia, mas também de concretização. A utopia realizada de Fausto de Figueiredo, que entre a Primeira República e os primeiros anos do Estado Novo construiu a primeira estância de raiz, o Estoril, à volta da qual fizemos uma das mais expressivas e inovadoras exposições destas comemorações.

A Primeira República aproximou, ainda, profissionais e amadores da hotelaria, com o objetivo de desenvolver esta indústria. E lançou as condições para que quem estivesse em cada localidade pugnasse pelos seus recursos e os desenvolvesse. Por isso, o Estado criou as Comissões de Iniciativa Local e Turismo e entregou-as às comunidades locais.

Sabemos como o turismo não pode passar sem a qualificação e promoção das nossas regiões e localidades e sem quem aí vive.

Promover significa convidar à visita. Já na Primeira República se publicou muito em matéria de divulgação turística, e um dos nomes referenciáveis é o de Raúl Proença, criador de uma obra matriz como é o Guia de Portugal, obra iniciada em 1924 e precursora de muitos mais meios de divulgação que, designadamente, o Estado Novo iria intensificar, envolvendo os melhores artistas.

Todos os regimes têm dois lados. E com a distância que o método científico nos aconselha, não podemos negar o papel que, nomeadamente, António Ferro deixou na história do turismo português.

O pós-Guerra reforçou a ideia do turismo como um instrumento de paz, pela convivência social que fomenta, pela melhor compreensão humana e pela sua importante incidência no desenvolvimento e recuperação económica. Nasce o turismo social, de que a FNAT, agora Fundação INATEL, é a entidade que o tem defendido em Portugal e que neste centenário teve um papel solidário e executor.

Em meados do século, o país recebeu o impulso possível nas infraestruturas. Não devemos esquecer as sementes deixadas, antes, por Duarte Pacheco. E, nesse tempo de meados do século, o ensino e os estudos científicos em turismo deram os primeiros passos. Em 1960, Jorge Felner da Costa já dizia que: “O turismo é, sobretudo, um produto que está na moda”. A imagem e a marca de Portugal foram evoluindo na segunda metade do século XX, sendo de destacar os diversos contextos culturais e correntes criativas de pensamento e de formas de comunicação em vários suportes e registos gráficos.

O turismo foi incluído, ainda em meados do século e pela primeira vez na sua história, num Plano de Fomento, outros se seguiram, fundamentais para se considerar, nos anos 60 e seguintes, o turismo como sector estratégico do desenvolvimento económico, cujos primeiros índices estatísticos são prova e tendo como meta aumentar o saldo da balança turística, atenuar desequilíbrios regionais e fomentar o turismo social.

Já em Democracia e com um Portugal geograficamente mais pequeno, os portugueses olham para si próprios, para a preservação e valorização do património cultural e natural e o incremento do turismo interno como fator de melhoria da qualidade de vida dos residentes.

Portugal, hoje, já não existe geograficamente para além da Europa, mas continua a ser o “caleidoscópio maravilhoso” que Ferro apelidou, porque – dizemos nós – a sua diversidade em tão pouca terra é a sua mais significativa característica. Ela – a diversidade – é o suporte do desafio de vencer atitudes de alheamento. Com energia. A energia coletiva que encontramos na própria história e usámos, com a dose possível, nestas comemorações.

E há o mar atlântico sob jurisdição portuguesa, maior que a terra e, portanto, aberto a novos desafios no turismo marítimo.

Mas se Portugal é mais pequeno em termos geográficos, o seu anterior território é, hoje, um desafio para a cooperação. Uma rede lusófona de turismo foi um pedido que fizemos há um ano nas onze conclusões do Congresso do Centenário.

Há que lembrar que o Congresso do Centenário traçou um primeiro momento de debate alargado e lançou desafios. Um Congresso de quatro dias, com 700 inscrições espontâneas e não arregimentadas e um programa cultural complementar, que o tornou, com estas características, num dos mais significativos congressos de turismo em Portugal. Todas as outras iniciativas das comemorações, de debate e expositivas por exemplo, serviram a intenção de propiciar uma rede nacional de eventos, com a qual se promoveu a ideia do centenário e a própria cidadania.

Uma outra conclusão passou pelo desafio às autoridades competentes para a preparação de um Museu do Turismo, não um museu único, mas sim um museu polinucleado e – aspeto muito importante em contexto de crise financeira – que possa aproveitar estruturas já existentes em Portugal, para receberem novos conteúdos e interpretações à volta da Viagem, da Descoberta, do Lazer e do Turismo. Um núcleo central será essencial, do qual se irradie para diferentes locais do país.

Arriscamos, uma vez mais, a propor ao Governo de Portugal uma função definitiva para um dos mais notáveis edifícios portugueses. Notável pela sua simbólica origem, localização e contemporaneidade da arquitetura. Trata-se do Pavilhão de Portugal no Parque das Nações, em Lisboa. Será que encontramos para ele uma melhor função? Apostar no Pavilhão de Portugal para o núcleo central do Museu do Turismo seria uma aposta inteligente de aproveitamento de um ativo que se mantém à espera que lhe seja dada uma função singular no contexto de Portugal e, por que não dizê-lo, no contexto universal. Dele irradiaria uma rede de outros núcleos espalhados pelo país, com a mesma lógica de aproveitamento e reinterpretação de equipamentos existentes, cujo critério talvez fosse ter um por cada uma das cinco áreas promocionais, acrescidas dos Açores e da Madeira.

Não cremos que o esforço financeiro fosse para além do possível, precisamente pela coerência do aproveitamento de existências passíveis de integração numa lógica de memória. Da memória e da evocação das capacidades dos portugueses de viajarem para além de nós e, em sentido contrário, de recebermos os nossos visitantes com o sorriso e o abraço que nos caracterizam como aspetos fundamentais na construção durante décadas de um país turístico.

Neste sentido, estas comemorações valem sempre a pena, porque acabam por deixar sementes para o futuro. Decorreram, contudo, em contexto de crise económica e de incerteza. Mas se a crise é um caldo de dificuldades, é igualmente uma oportunidade para o turismo ser o primeiro sector a resolvê-la, incorporando a aptidão dos atores públicos e privados, das escolas de hotelaria e turismo, em todos os níveis de ensino, mas também a cidadania e o bom acolhimento, ou seja, uma rede de emoções, na qual se recomenda sorriso e competência, ou seja, Portugal no seu melhor.

E Portugal no seu melhor tem de saber contar com a juventude, dar-lhe razões para ficar no seu país. A juventude que é sinónimo de aventura, tal como há cinco séculos. Não esqueçamos que os nossos descobridores tinham, na sua grande maioria, apenas vinte e tal anos quando deram novos mundos ao mundo e, por certo, iniciaram o conceito do viajar, que acabou por ser o suporte do turismo.

Sabemos como a nossa vida é uma viagem. Com muitas viagens dentro. Estas comemorações têm sido essa viagem, tendo como pano de fundo o ritmo que, desde logo, nos dá o movimento das fitas festivas do nosso logótipo tão bem desenhado pela Marina Loyola – aqui presente –, logótipo que tem viajado como marca gráfica destas comemorações.

Ainda anteontem estivemos no Porto, a propósito do lançamento da rede cultural das minas de Volfrâmio, curiosamente a anteceder esta Festa de Encerramento na vila mineira de Aljustrel. A coincidência pode não ser tanta quando sabemos – e o Centenário tem sublinhado isso – da importância dos novos produtos turísticos, de que o património industrial associado ao valor cultural das minas é um exemplo.

Um outro património – este em perigo de se perder, apesar de ser um dos nossos ícones turísticos mais apreciados por quem nos visita – é o património azulejar.

O azulejo – que, por um lado, necessita de salvaguarda e, por outro, de novas criações – deve ser acarinhado no quadro do recente protocolo entre Secretários de Estado da Cultura e do Turismo.

Urge que seja enquadrado um Plano Nacional de Salvaguarda do Azulejo e o registo e a inclusão do património azulejar português no PENT – Plano Estratégico Nacional de Turismo –, para além de outras medidas consequentes urgentes –, pois é essencial incentivar e potenciar, de modo estrutural no contexto turístico, a salvaguarda e divulgação deste nosso património cultural único e a promoção de novas criações. Estamos, também, disponíveis para colaborar.

Se o azulejo é um dos mais singulares e diferenciadores símbolos artísticos do nosso país, também o fado teve o seu tratamento particular neste centenário, no ano em que a UNESCO o consagrou como património da humanidade. “Passaporte do Fado” foi a criação e o tema que oferecemos neste contexto, para a voz de Mafalda Arnauth, que no Congresso do Centenário nos ecoou as palavras que, num dos fragmentos, falam numa “Ave em desafio no vento”. Quem sabe se é a mesma ave que, agora no Alentejo, e também neste contexto, está presente na Moda que oferecemos ao Cante Alentejano, que no final desta sessão iremos ouvir, sob o título de“Passarinho Alentejano”.

Seja com a ave do “Passaporte do Fado”, seja com o “Passarinho Alentejano”, metaforicamente falando, o que importa é darmos asas a quem, no turismo, queira voar mais longe e dignificar todos aqueles que, num século de turismo organizado em Portugal, deram muito ou pouco, não importa, mas acreditaram que um país com pessoas genuínas como estas que por exemplo encontramos em terras alentejanas e com os recursos naturais e culturais tão diferenciadores do nosso país, é possível termos o turismo como nossa bandeira.

A Comissão Nacional e a Cidadania cumpriram o seu dever.

Obrigado Portugal.
Obrigado Alentejo.
Obrigado Aljustrel.

Aljustrel, 26 de Maio de 2012

Jorge Mangorrinha
Presidente da Comissão Nacional do Centenário do Turismo em Portugal

2011-01-01

O Ano do Centenário do Turismo

Imagem: logótipo do IV Congresso Internacional de Turismo, Lisboa, 1911
(des. Raul Lino, col. Jorge Mangorrinha)

O primeiro minuto do ano em que as "águas" se juntam.
Celebremos o Centenário da Institucionalização do Turismo em Portugal (1911-2011)!

2010-09-27

Dia Mundial do Turismo

Imagem: "Indian Summer", Zoltán Balogh

Sob o lema "Turismo e Biodiversidade", a Organização Mundial do Turismo promoveu um concurso de fotografia, cujos resultados estão acessíveis em: http://www.unwto.org/worldtourismday/photocompetition/winners.php?lang=E.
Esta é a imagem vencedora e, também, a nossa selecção, para registarmos, hoje, o Dia Mundial do Turismo, em torno de um tema verdadeiramente pertinente: a necessidade de bem articular o Turismo com a Biodiversidade do Planeta.

2010-08-06

O Turismo e a Saúde

O Curso de Pós-graduação em Turismo de Saúde e Saúde no Turismo é inédito e pretende contribuir para a formação técnico-científica no binómio saúde e turismo, duas áreas intimamente ligadas, quer no que diz respeito à saúde no turismo, quer na perspectiva do turismo de saúde.
Na primeira área, consideram-se todas as situações em que os profissionais de turismo devem estar preparados para actuar no domínio da saúde, designadamente ao nível da prevenção e informação, seja no turismo de aventura ou em deslocações para locais exóticos, ou na prestação de cuidados imediatos, em qualquer situação de emergência que ocorra. Insere-se, também, nesta primeira área a possibilidade de oferecer pacotes turísticos a indivíduos com patologias que, à partida, limitam as suas possibilidades enquanto turistas.
Uma segunda área refere-se aos territórios onde o enfoque é dado numa vertente de promoção da saúde, designadamente, termas, spas integrados e centros de talassoterapia.
Assim, acredita-se que a frequência deste Curso acrescentará conhecimento teórico e prático e valor curricular aos participantes, na medida em que constitui uma abordagem enriquecedora da sua actividade profissional e/ou do seu currículo académico, em áreas com elevado potencial de desenvolvimento.
O Curso é organizado pelo Centro de Estudos do Turismo e decorrerá na Escola Superior de Hotelaria e Turismo do Estoril. Para mais informações: http://www.eshte.pt/index.php?option=com_content&task=view&id=1653&Itemid=548

2010-07-23

Viajar! A República, a institucionalização do Turismo e as Termas em Portugal


Imagem: menu do IV Congresso Internacional de Turismo, ilustrado por Gilberto Ventura Renda, 1911

A institucionalização do Turismo em Portugal foi mais facilmente possível, nos termos em que decorreu, graças à implantação da República, meses antes.
Curiosamente, há 100 anos, as histórias de dois importantes edifícios associados às práticas termais cruzavam-se em datas próximas à implantação da República em Portugal. A 4 de Outubro de 1910, os Banhos de S. Paulo, em Lisboa, receberam o quartel-general dos conspiradores republicanos e, para o dia 6, estava prevista a inauguração pelo rei do majestoso Palace Hotel do Vidago.
Após a implantação da República, encarou-se o turismo como parte integrante da resolução dos problemas do país e como via para a aproximação à Europa. Em 1911, a agricultura portuguesa absorvia 57% da população e a indústria apresentava-se débil e desconcentrada; só 17,5% da população residia em centros urbanos.
Era um país fortemente ruralizado o que, em 1911, assistiu à criação da primeira Repartição de Turismo em Portugal e à pretensão do grupo Le Soleil de Lisbonne, encabeçado pelo capitalista Eduardo Coelho, em dotar Lisboa de um grande complexo turístico. Todavia, esta ambição viria a concretizar-se no Estoril, pela mão de outros investidores, liderados por Fausto de Figueiredo. Os contornos dos dois projectos eram semelhantes: a construção de hotéis, casino e outros equipamentos de lazer, rodeados de amplas zonas verdes.
Nas Caldas da Rainha, fora criada a Liga de Defesa e Propaganda, cujos propósitos passavam por: «Chamar às Caldas, como a mais importante das estações termais da península e a mais própria estação de Verão, a concorrência de nacionais e estrangeiros, fazendo larga propaganda das suas condições climatéricas, das suas belas águas, da sua situação como centro de excursões, do encanto dos passeios».
Mas a República viabilizaria, sobretudo, o grande projecto do Estoril. Desde logo, dando-lhe apoio político no Parlamento e, também, através do Conselho de Turismo, pelos seus relatores, arquitecto Ventura Terra e o director da Repartição de Turismo, José de Ataíde. A legislação hoteleira, de 1914, concedeu isenções a quem construísse hotéis com conforto semelhante aos melhores hotéis estrangeiros.
Mas, ao mesmo tempo, o país tinha dificuldade em sair do fraco desenvolvimento em termos de infra-estruturas e equipamentos que permitissem acessibilidades rápidas e confortáveis, o que influenciava a fraca procura turística. Note-se que apenas depois da I República se iniciaria a construção sistemática de estradas e, nos anos 40, do aeroporto, das gares marítimas e da remodelação dos transportes ferroviários. O mercado interno da hotelaria portuguesa era, até aos anos 30, dependente das camadas mais endinheiradas da sociedade, sendo que a maior parte dos fluxos de aquistas das termas portuguesas procurava unidades mais modestas, como pensões e casas particulares.
Em 1915, o arquitecto Raul Lino define um modelo típico de hotel português, neste caso para o sul, que inspira, mais tarde, a legislação de 1930 que, no seu preâmbulo, aconselha que os edifícios adaptados ou a construir de raiz se harmonizassem tanto quanto possível com o carácter regional ou nacional. A principal influência seria concretizada na construção das pousadas do Estado Novo, defendidas no I Congresso da União Nacional (1934) e no I Congresso Nacional de Turismo (1936).
Durante a I República, as termas portuguesas acabam por polarizar um território autónomo, onde se geriu um número apreciável de unidades hoteleiras, muito à custa do saber dos seus proprietários que incutiam nos empregados a arte de bem receber, já que era escassa a formação hoteleira e os trabalhos editados em Português sobre a matéria.
À escala do território, foi importante a criação de comissões de iniciativa, como aconteceu com a dinâmica Comissão das Caldas da Rainha, embora em muitos outros locais o seu papel não tivesse sido aquele que o legislador inicialmente pensou. Na Comissão das Caldas, destaque para o nome do coronel José António Ferreira Madaíl, personalidade da cultura portuguesa da primeira metade do século XX, autor de um guia turístico sobre as Caldas da Rainha (1911), director da Sociedade Propaganda de Portugal e fundador da Sociedade Industrial Farmacêutica (1923). Madaíl desenvolveu uma acção cultural significativa a favor da cultura regional caldense.
As comissões de iniciativa foram criadas pela Lei n.º 1152 de 23 de Abril de 1921, com o objectivo de promoverem quer o desenvolvimento de todas as estâncias hidrológicas ou termais e outras (praias, estâncias climatéricas, de altitude, de repouso, de recreio e de turismo) quer o incremento da indústria do turismo. As funções que lhes foram cometidas consistiam no zelo da área turística, na elaboração de projectos de melhoramento, na inventariação de vestígios históricos e na cobrança da respectiva taxa de turismo que era enviada ao Governo. As comissões de iniciativa foram extintas, já no Estado Novo, em Dezembro de 1936, e em seu lugar foram criadas as Juntas de Turismo que receberam o seu património.
Inaugurada que é hoje a exposição "Viajar", no âmbito do Centenário da República, reitera-se a importância de celebrar o Centenário da Institucionalização do Turismo em Portugal, em 2011, como oportunidade para relevar a importância desta actividade para a Cultura e para a Economia.

2010-05-12

A Institucionalização do Turismo em Portugal

Imagem: A Rua do Ouro, em Lisboa, engalanada e plena de congressistas em passeio, no dia da inauguração do IV Congresso Internacional de Turismo, em 12 de Maio de 1911

Faz hoje 99 anos que se iniciou o memorável IV Congresso Internacional de Turismo, o maior alguma vez realizado em Portugal à volta desta temática, com a presença de quase 1500 congressistas de diferentes países. Queremos que daqui a um ano, precisamente, estejamos a celebrar o Centenário da institucionalização do Turismo em Portugal.
De facto, em 12 de Maio, foram abertos, com solenidade, os trabalhos do Congresso, e foi desde logo aventada, pelos organizadores e pelo novo Governo republicano, a necessidade de criação, em Portugal, de um organismo oficial de Turismo. A 16 de Maio, o Governo decretaria então que, no Ministério do Fomento, passasse a funcionar um Conselho de Turismo, coadjuvado por uma Repartição de Turismo.
Também as estâncias termais beneficiariam com esta decisão da I República portuguesa: a moda das termas e o plano do Estoril em particular.

2010-05-08

"O Problema de Turismo"

Imagem: "O Problema de Turismo", caricatura de Emmérico Nunes, pormenor de ABC a rir, Abril de 1921

Decorreu ontem e hoje, no salão nobre dos Paços do Concelho de Lisboa, o Colóquio Nacional “A Vida Cultural na Lisboa Republicana (1910-1926)”, no âmbito das comemorações municipais do Centenário da República. Fui orador com "A Cidade, os Lisboetas e os Viajantes: a Cultura na perspectiva do Turismo durante a I República (Lisboa e os Guias Turísticos)”.
Curiosamente naquele tempo alguns dos problemas da sociedade eram semelhantes aos de hoje.
Em 1921, Emmérico Nunes desenha um passageiro de comboio procedendo contra os princípios de urbanidade e instrução cívica, bem expressos nas recomendações escritas na própria carruagem: é proibido cuspir, escarrar e pôr os pés nos assentos. Pelos vistos, atitudes comuns, pouco abonatórios para a melhoria do problema do turismo em Portugal.

2010-04-20

O PIN do Alqueva!

Imagem: Planta do lago do Alqueva

Hoje, foi dado solenemente início oficial às obras do Parque do Alqueva. O empreendimento foi classificado como de Potencial Interesse Nacional (PIN) e prevê quase mil milhões de euros de investimento global, a concretizar ao longo de duas décadas, numa área total superior a dois mil hectares, entre Reguengos de Monsaraz e a albufeira: a Herdade das Areias, com 860 hectares, a Herdade do Pastor, com 475 hectares, e a Herdade do Roncão d'el Rei, com 733 hectares, onde está a arrancar a primeira fase do projecto.
O primeiro de sete hotéis vai ser gerido pela cadeia Alila, sedeada em Singapura. O Hotel do Monte, que resulta da antiga reconversão do monte de caça do rei, deverá estar concluído e pronto a abrir as portas no terceiro trimestre de 2012.
O projecto do Parque do Alqueva prevê ainda quatro campos de golfe, duas marinas, centro equestre e postos de observação de aves na Natureza.
Foi contratado Len Silverfine, especialista norte-americano em marketing estratégico na área do turismo sustentável, para assumir a responsabilidade da política de marketing deste projecto turístico de José Roquette. Len Silverfine tem 40 anos de experiência vividos nas áreas do marketing estratégico e vendas. Para a Intrawest Resorts (Storied Places and Playground) e outras empresas internacionais actuantes no desenvolvimento de resorts, desenvolveu programas de marketing, com os objectivos de desenvolver vectores como a percepção de valor e absorção dos produtos, e de fidelidade dos clientes.
A propósito do lançamento de mais um PIN, cuja legislação foi decidida pelo Governo português através da Resolução do Conselho de Ministros n.º 95/2005, de 24 de Maio, a ideia foi adoptar novos mecanismos de acompanhamento e desenvolvimento processual destes projectos, para, segundo os seus responsáveis políticos, dinamizar, facilitar e dar confiança e visibilidade ao investimento que, em Portugal, diversifique a base económica existente, incentive emprego qualificado ou crie mais valor acrescentado. E os chavões “critérios para a qualificação dos projectos”, “plano energético”, “sustentabilidade ambiental” e “emprego” não podiam deixar de estar nesse dossiê inicial de arranque deste plano de investimento!
O Parque do Alqueva foi, hoje, anunciado como fortementre empregador. Resta saber quanto vão ganhar os seus empregados. Esperamos que não aconteça o mesmo que um outro PIN em desenvolvimento, noutra parte do país, em que oferecia para a maior parte dos empregos o salário mínimo e 750 euros para licenciados.
Ficamos à espera do desenvolvimento deste sonho – verde – do seu investidor português e do grau de felicidade que irá dar particularmente aos alentejanos!

2010-04-01

Águas Dominicanas

Imagem: Pormenor de casa dominicana, 1996, Jorge Mangorrinha

A oportunidade turística da República Dominicana foi potenciada pelo isolamento imposto pelos Estados Unidos a Cuba, há 50 anos. Em 1959, na sequência desta atitude, os investimentos europeus e norte-americanos foram redimensionados para outros territórios próximos. A República Dominicana foi um desses casos.
Este país ocupa dois terços da ilha A Espanhola. O outro terço pertence ao Haiti. A cultura da República Dominicana tem raízes europeias, africanas e americanas, sentindo-se no contacto directo com a população. O território é de uma beleza notável, onde vivi, em 1996, para executar o Plano Nacional de Ordenamento do Território Turístico (BID/SNEDE, 1996/97), como coordenador técnico de uma equipa de consultores internacionais (portugueses, incluindo uma especialista venezuelana em Transportes) que trabalhou junto do Banco Interamericano de Desenvolvimento, do Banco Central da República Dominicana e da Secretaria de Estado do Turismo.
Foi o primeiro plano turístico, realizado no estrangeiro, a ser coordenado e executado pelo nosso país.
À volta da imensidão das águas de diversos tons de azul ou das cascatas, dos balneários e das represas de água cristalina no interior da ilha, esta terra dá-nos gente hospitaleira, flora espontânea, lagos e pequenos vales de beleza misteriosa, arquitectura colonial e autóctone, pinturas coloridas e jóias de ambar, merengue e puros dominicanos que não ficam atrás dos de Cuba (ver: Jorge Mangorrinha, "Território de Recursos: raízes, tendências e turismo na República Dominicana", in http://arquitectos.pt/documentos/1226277004U8uFG8ne8Xk61BL0.pdf).
A aposta do planeamento turístico em países com estas características é saber potenciar as actividades que ponham o turista em contacto com a população local, ou seja, um turismo solidário que também se desenha, por exemplo na optimização das novas infra-estruturas dos complexos turísticos com as necessidades desse ponto de vista na zona envolvente relacionada com o quotidiano dos autóctones.
Isto para que o paraíso seja sustentável. Mas será que, 14 anos depois de o conhecer, o paraíso ainda existe? Talvez o meu amigo e arquitecto paisagista Ricardo Lanati nos possa explicar.
Ricardo Lanati era o mais jovem dominicano do grupo técnico que, no Banco Central da República Dominicana, dava apoio à nossa equipa executante. Apesar da sua idade, o Ricardo era, sem dúvida, o mais talentoso. Vive, actualmente, entre Florida e Santo Domingo e é um seguidor deste (nosso) blog.

2010-03-27

Educação e Turismo Ambiental

Imagem: Cartaz do Encontro

Realiza-se, de 16 a 18 de Abril próximos, o 3.º Encontro de Educação e Turismo Ambiental, numa organização da SETA (Sociedade Portuguesa para o Desenvolvimento da Educação e do Turismo Ambientais) e o apoio da Câmara Municipal de Cascais. O local do evento será nas instalações da DNA Cascais, ninho de empresas, na Cruz da Popa, em Alcabideche. A SETA é uma Organização Não Governamental de Ambiente (ONGA), com o estatuto de Associação, fundada em 24 de Fevereiro de 2005, e tem realizado um número impressionante de iniciativas de âmbito ambiental, sempre periodicamente divulgadas, como prova o meu arquivo de mensagens e o sítio electrónico da SETA (http://www.seta.org.pt/). No âmbito da Rede de Água e Rios da SETA têm sido criados e divulgados materiais pedagógicos de educação ambiental em torno desta temática, promovidas acções de formação de professores acreditadas, reuniões de cariz periódico e promovidos encontros e intercâmbios de professores e alunos às diferentes escalas. Foi, com transmitido entusiasmo por parte do seu presidente Fernando Louro Alves, o primeiro seguidor inscrito deste blog. Por isso, também, o meu justo reconhecimento.

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