O valor universal da água, no que diz respeito à sobrevivência da Humanidade e à importância que tem por exemplo para as questões energéticas e da regeneração do corpo, obriga a que cada um de nós deva tomar esse recurso como finito e o preserve em todas as formas de utilização. As cidades que o têm como recurso económico e identitário devem saber potenciá-lo como desenvolvimento, contribuindo assim para o desígnio universal. Este é um espaço de estas e de outras águas. De todas as águas.

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2012-05-29

Centenário do Turismo em Portugal




"O perfeito é desumano, porque o humano é imperfeito" (Fernando Pessoa)

O Ciclo Comemorativo do Centenário do Turismo em Portugal concluiu-se, pelo que, de novo "ao encontro das águas", apenas com mais este contributo, em solidária parceria com http://centenariodoturismo.blogspot.pt/, este um novo blogue de mensagem única.

Única, porque escrita e publicada no final do mês de encerramento das comemorações do Centenário do Turismo em Portugal, com o objectivo e o dever pessoal de publicar, num contexto à parte da Comissão Nacional e com este registo, uma síntese do balanço desse encerramento, cuja Festa aconteceu - Memorável - no passado sábado, em Aljustrel, no Alentejo.

Memorável, quanto a generosidade e simplicidade com que foi concebida, trabalhada, vivenciada.

Memorável, pela presença dos Cidadãos, de Aljustrel e de muitas outras partes do país.

Memorável, pela inauguração de mais uma unidade de alojamento rural e o anúncio de outras mais para Aljustrel.

Memorável, pela singularidade da sessão solene, desde os tributos da Comissão Nacional ao Instituto do Turismo de Portugal e a Brito Camacho, à Conferência por uma das mais brilhantes alunas de Turismo do país e à actuação dos Grupo de Metais da Filarmónica de Aljustrel.

Memorável, pelo desfile do Cante Alentejano, com tantos grupos que se juntaram nas ruas da vila mineira.

Memorável, pelo espectáculo de raiz alentejana, realizado na pedreira das minas e concebido a propósito, juntando nomes com ligações profundas ao Alentejo, como Ana Vieira, António Zambujo, Francisco Naia, Luís Saturnino, Nova Aurora e Vitorino.

E, nesta hora, interessa agradecer aos que, generosamente, construíram durante mais de um ano um programa oficial, sólido e substancial, sem que para tal fossem necessárias verbas exorbitantes. Foi de pequenos apoios ou patrocínios que se congregaram todas estas pessoas e entidades públicas e privadas em volta de uma ideia e da sua realização.

Foi necessário espírito de iniciativa e empreendedor. Afinal, um dos fundamentos do Turismo.

Obrigado.
Jorge Mangorrinha


Discurso na Sessão Solene

A Comissão Nacional do Centenário do Turismo em Portugal propôs-se celebrar os cem anos de turismo na orgânica do Estado e conseguiu. A motivação pela adesão de mais de uma centena e meia de entidades públicas e privadas, a confiança que merecemos do Governo de Portugal, o Alto Patrocínio do Presidente da República e a coesão entre os elementos executivos da Comissão Nacional, a que tenho a honra de presidir, foram os fundamentos para aquilo que construímos como programa oficial, diverso, participado e, devo dizê-lo com maior sublinhado, um programa aberto a todo o país. Um dos nossos lemas foi: “o turismo não deve ter fronteiras”.

Desde a ideia, que debatemos há cerca de quatro anos designadamente em sede do Instituto Turismo de Portugal, até aos passos que se seguiram a partir da confiança que o Governo de Portugal depositou em nós, esta missão tem tido algumas singularidades que, neste momento, temos de expressar e partilhar convosco, até porque são sinais que podem servir de referencial para o que todos quisermos entender no nosso caminhar futuro.

Comemorar cem anos de turismo organizado em Portugal é lembrar o passado com um olhar no presente e futuro.

Portugal foi das primeiras nações a enveredarem, desde 1911, pela institucionalização governamental do turismo, a par da Áustria e da França. No mesmo ano, a Sociedade Propaganda de Portugal, constituída por monárquicos e republicanos, católicos e maçons, trouxe para Portugal a realização de um Congresso Internacional de Turismo. Veja-se como, já nesse tempo, o turismo era abrangente e transversal a diferentes opções humanas.

O Governo republicano vê uma oportunidade para se afirmar aos olhos da Europa e apoiou decisivamente esse congresso, que teve um enorme sucesso.

Manuel de Brito Camacho assumiria o Turismo no seu Ministério do Fomento. E, como sabemos, a ele se deve parte da escolha conjunta em nos juntarmos hoje em Aljustrel para esta Festa de Encerramento das comemorações.

O Alentejo que em Brito Camacho sempre esteve presente. O Alentejo que nestes cem anos foi terra de dificuldades, coragem e trabalho, e é hoje um território aberto ao melhor do turismo e, também por isso, nos orgulhamos de aqui estar, até porque – permitam-me uma nota particular – também neste ano faria cem anos o meu avô materno, por feliz coincidência nascido e vivido neste concelho. O Alentejo teve, em 2011, o melhor ano turístico de sempre. A assinatura “O Alentejo dá-lhe tudo” é uma verdade. Também dá uma Festa de Encerramento do Centenário do Turismo em Portugal.

Alentejo é o Património do Tempo. Permitam-me desejar que seja este o Tempo da Utopia. O Tempo para pensar e reflectir. O Tempo para escrever. Quiçá para escrever o futuro.

Mas não há futuro sem passado. E, neste, houve quem escrevesse as linhas das utopias de um tempo histórico feito de tempos diferentes. Uma história feita essencialmente de pessoas que acreditaram que Portugal tem condições para, com o turismo, se afirmar no mundo.

Um nome foi essencial nos primeiros tempos: Leonildo de Mendonça e Costa, diretor da Gazeta dos Caminhos de Ferro, fundador da Sociedade Propaganda de Portugal e um dos mais profícuos apaixonados pela viagem e pelo turismo. A ele se deve, por exemplo, o Manual do Viajante em Portugal.

Os primeiros tempos foram de utopia, mas também de concretização. A utopia realizada de Fausto de Figueiredo, que entre a Primeira República e os primeiros anos do Estado Novo construiu a primeira estância de raiz, o Estoril, à volta da qual fizemos uma das mais expressivas e inovadoras exposições destas comemorações.

A Primeira República aproximou, ainda, profissionais e amadores da hotelaria, com o objetivo de desenvolver esta indústria. E lançou as condições para que quem estivesse em cada localidade pugnasse pelos seus recursos e os desenvolvesse. Por isso, o Estado criou as Comissões de Iniciativa Local e Turismo e entregou-as às comunidades locais.

Sabemos como o turismo não pode passar sem a qualificação e promoção das nossas regiões e localidades e sem quem aí vive.

Promover significa convidar à visita. Já na Primeira República se publicou muito em matéria de divulgação turística, e um dos nomes referenciáveis é o de Raúl Proença, criador de uma obra matriz como é o Guia de Portugal, obra iniciada em 1924 e precursora de muitos mais meios de divulgação que, designadamente, o Estado Novo iria intensificar, envolvendo os melhores artistas.

Todos os regimes têm dois lados. E com a distância que o método científico nos aconselha, não podemos negar o papel que, nomeadamente, António Ferro deixou na história do turismo português.

O pós-Guerra reforçou a ideia do turismo como um instrumento de paz, pela convivência social que fomenta, pela melhor compreensão humana e pela sua importante incidência no desenvolvimento e recuperação económica. Nasce o turismo social, de que a FNAT, agora Fundação INATEL, é a entidade que o tem defendido em Portugal e que neste centenário teve um papel solidário e executor.

Em meados do século, o país recebeu o impulso possível nas infraestruturas. Não devemos esquecer as sementes deixadas, antes, por Duarte Pacheco. E, nesse tempo de meados do século, o ensino e os estudos científicos em turismo deram os primeiros passos. Em 1960, Jorge Felner da Costa já dizia que: “O turismo é, sobretudo, um produto que está na moda”. A imagem e a marca de Portugal foram evoluindo na segunda metade do século XX, sendo de destacar os diversos contextos culturais e correntes criativas de pensamento e de formas de comunicação em vários suportes e registos gráficos.

O turismo foi incluído, ainda em meados do século e pela primeira vez na sua história, num Plano de Fomento, outros se seguiram, fundamentais para se considerar, nos anos 60 e seguintes, o turismo como sector estratégico do desenvolvimento económico, cujos primeiros índices estatísticos são prova e tendo como meta aumentar o saldo da balança turística, atenuar desequilíbrios regionais e fomentar o turismo social.

Já em Democracia e com um Portugal geograficamente mais pequeno, os portugueses olham para si próprios, para a preservação e valorização do património cultural e natural e o incremento do turismo interno como fator de melhoria da qualidade de vida dos residentes.

Portugal, hoje, já não existe geograficamente para além da Europa, mas continua a ser o “caleidoscópio maravilhoso” que Ferro apelidou, porque – dizemos nós – a sua diversidade em tão pouca terra é a sua mais significativa característica. Ela – a diversidade – é o suporte do desafio de vencer atitudes de alheamento. Com energia. A energia coletiva que encontramos na própria história e usámos, com a dose possível, nestas comemorações.

E há o mar atlântico sob jurisdição portuguesa, maior que a terra e, portanto, aberto a novos desafios no turismo marítimo.

Mas se Portugal é mais pequeno em termos geográficos, o seu anterior território é, hoje, um desafio para a cooperação. Uma rede lusófona de turismo foi um pedido que fizemos há um ano nas onze conclusões do Congresso do Centenário.

Há que lembrar que o Congresso do Centenário traçou um primeiro momento de debate alargado e lançou desafios. Um Congresso de quatro dias, com 700 inscrições espontâneas e não arregimentadas e um programa cultural complementar, que o tornou, com estas características, num dos mais significativos congressos de turismo em Portugal. Todas as outras iniciativas das comemorações, de debate e expositivas por exemplo, serviram a intenção de propiciar uma rede nacional de eventos, com a qual se promoveu a ideia do centenário e a própria cidadania.

Uma outra conclusão passou pelo desafio às autoridades competentes para a preparação de um Museu do Turismo, não um museu único, mas sim um museu polinucleado e – aspeto muito importante em contexto de crise financeira – que possa aproveitar estruturas já existentes em Portugal, para receberem novos conteúdos e interpretações à volta da Viagem, da Descoberta, do Lazer e do Turismo. Um núcleo central será essencial, do qual se irradie para diferentes locais do país.

Arriscamos, uma vez mais, a propor ao Governo de Portugal uma função definitiva para um dos mais notáveis edifícios portugueses. Notável pela sua simbólica origem, localização e contemporaneidade da arquitetura. Trata-se do Pavilhão de Portugal no Parque das Nações, em Lisboa. Será que encontramos para ele uma melhor função? Apostar no Pavilhão de Portugal para o núcleo central do Museu do Turismo seria uma aposta inteligente de aproveitamento de um ativo que se mantém à espera que lhe seja dada uma função singular no contexto de Portugal e, por que não dizê-lo, no contexto universal. Dele irradiaria uma rede de outros núcleos espalhados pelo país, com a mesma lógica de aproveitamento e reinterpretação de equipamentos existentes, cujo critério talvez fosse ter um por cada uma das cinco áreas promocionais, acrescidas dos Açores e da Madeira.

Não cremos que o esforço financeiro fosse para além do possível, precisamente pela coerência do aproveitamento de existências passíveis de integração numa lógica de memória. Da memória e da evocação das capacidades dos portugueses de viajarem para além de nós e, em sentido contrário, de recebermos os nossos visitantes com o sorriso e o abraço que nos caracterizam como aspetos fundamentais na construção durante décadas de um país turístico.

Neste sentido, estas comemorações valem sempre a pena, porque acabam por deixar sementes para o futuro. Decorreram, contudo, em contexto de crise económica e de incerteza. Mas se a crise é um caldo de dificuldades, é igualmente uma oportunidade para o turismo ser o primeiro sector a resolvê-la, incorporando a aptidão dos atores públicos e privados, das escolas de hotelaria e turismo, em todos os níveis de ensino, mas também a cidadania e o bom acolhimento, ou seja, uma rede de emoções, na qual se recomenda sorriso e competência, ou seja, Portugal no seu melhor.

E Portugal no seu melhor tem de saber contar com a juventude, dar-lhe razões para ficar no seu país. A juventude que é sinónimo de aventura, tal como há cinco séculos. Não esqueçamos que os nossos descobridores tinham, na sua grande maioria, apenas vinte e tal anos quando deram novos mundos ao mundo e, por certo, iniciaram o conceito do viajar, que acabou por ser o suporte do turismo.

Sabemos como a nossa vida é uma viagem. Com muitas viagens dentro. Estas comemorações têm sido essa viagem, tendo como pano de fundo o ritmo que, desde logo, nos dá o movimento das fitas festivas do nosso logótipo tão bem desenhado pela Marina Loyola – aqui presente –, logótipo que tem viajado como marca gráfica destas comemorações.

Ainda anteontem estivemos no Porto, a propósito do lançamento da rede cultural das minas de Volfrâmio, curiosamente a anteceder esta Festa de Encerramento na vila mineira de Aljustrel. A coincidência pode não ser tanta quando sabemos – e o Centenário tem sublinhado isso – da importância dos novos produtos turísticos, de que o património industrial associado ao valor cultural das minas é um exemplo.

Um outro património – este em perigo de se perder, apesar de ser um dos nossos ícones turísticos mais apreciados por quem nos visita – é o património azulejar.

O azulejo – que, por um lado, necessita de salvaguarda e, por outro, de novas criações – deve ser acarinhado no quadro do recente protocolo entre Secretários de Estado da Cultura e do Turismo.

Urge que seja enquadrado um Plano Nacional de Salvaguarda do Azulejo e o registo e a inclusão do património azulejar português no PENT – Plano Estratégico Nacional de Turismo –, para além de outras medidas consequentes urgentes –, pois é essencial incentivar e potenciar, de modo estrutural no contexto turístico, a salvaguarda e divulgação deste nosso património cultural único e a promoção de novas criações. Estamos, também, disponíveis para colaborar.

Se o azulejo é um dos mais singulares e diferenciadores símbolos artísticos do nosso país, também o fado teve o seu tratamento particular neste centenário, no ano em que a UNESCO o consagrou como património da humanidade. “Passaporte do Fado” foi a criação e o tema que oferecemos neste contexto, para a voz de Mafalda Arnauth, que no Congresso do Centenário nos ecoou as palavras que, num dos fragmentos, falam numa “Ave em desafio no vento”. Quem sabe se é a mesma ave que, agora no Alentejo, e também neste contexto, está presente na Moda que oferecemos ao Cante Alentejano, que no final desta sessão iremos ouvir, sob o título de“Passarinho Alentejano”.

Seja com a ave do “Passaporte do Fado”, seja com o “Passarinho Alentejano”, metaforicamente falando, o que importa é darmos asas a quem, no turismo, queira voar mais longe e dignificar todos aqueles que, num século de turismo organizado em Portugal, deram muito ou pouco, não importa, mas acreditaram que um país com pessoas genuínas como estas que por exemplo encontramos em terras alentejanas e com os recursos naturais e culturais tão diferenciadores do nosso país, é possível termos o turismo como nossa bandeira.

A Comissão Nacional e a Cidadania cumpriram o seu dever.

Obrigado Portugal.
Obrigado Alentejo.
Obrigado Aljustrel.

Aljustrel, 26 de Maio de 2012

Jorge Mangorrinha
Presidente da Comissão Nacional do Centenário do Turismo em Portugal

2011-03-22

Aniversário

Dia Mundial da Água.
Há um ano, precisamente, iniciámos este contacto com a blogosfera. Obrigado aos amigos que se associaram ou nos contactaram, por causa deste espaço dedicado a todas as águas.
Nos últimos tempos, os dias têm sido demasiado preenchidos por múltiplas ocupações que pouco tempo têm deixado para estas escritas. Outras porém acontecem. O Turismo em Portugal, para a origem do qual as águas balneares muito contribuíram, faz este ano o seu Centenário.
Estamos nessa!

2011-01-01

O Ano do Centenário do Turismo

Imagem: logótipo do IV Congresso Internacional de Turismo, Lisboa, 1911
(des. Raul Lino, col. Jorge Mangorrinha)

O primeiro minuto do ano em que as "águas" se juntam.
Celebremos o Centenário da Institucionalização do Turismo em Portugal (1911-2011)!

2010-10-05

As Cores de Portugal

Imagem: projecto de bandeira nacional, tinta sobre tela, dim.510x610 mm, des. Delfim Faria da Costa, Sintra, 24 de Outubro de 1910, col. Arquivo Municipal de Lisboa, cota: PT/AMLSB/AL/CMLSB/UROB-PU/11/884, in Eu fui uma testemunha. O 5 de Outubro em Lisboa, edição da Câmara Municipal de Lisboa, p.54 (catálogo da exposição inaugurada hoje pela tarde nos Paços do Concelho).

A escolha das cores e da composição da actual bandeira portuguesa não foi pacífica, tendo inclusivamente dado origem a acesas polémicas e à apresentação de várias propostas, por parte dos partidários do azul e branco e os do verde e rubro, mesmo entre republicanos. Um dos exemplos é esta versão datada de 24 de Outubro de 1910, depositada no Arquivo Municipal de Lisboa e, a partir deste 5 de Outubro, revelada publicamente.
Não tendo, portanto, sido uma questão pacífica, as cores da bandeira republicana e nacional fixaram-se ainda em 1910, após relatório da comissão nomeada para o efeito [aprovada pelo Governo em 29 de Novembro, ratificada na Assembleia Nacional Constituinte em 19 de Julho de 1911 e publicada no Diário do Governo, sucessivamente nos números 141 e 150, em Decreto de 30 de Junho de 1911].
O azul e o branco haviam sido já decretados como as cores escolhidas para o laço nacional (cockard) nas Cortes Gerais da Nação, em 1821, baseadas no escudo de D. Afonso Henriques. Em 1910, na sessão da Câmara Municipal de Lisboa de 8 de Dezembro, uma curiosa intervenção do vereador Cunha e Costa ocupou-se dessa matéria, já depois de a bandeira definitiva estar entregue às “forças de terra e mar”, em acto solene dias antes.
José Soares da Cunha e Costa (1868-1928) era licenciado em Direito pela Universidade de Coimbra. Fora viver para o Brasil, tendo-se tornado Cônsul de Portugal em Santos, participando na acção da Comunidade Portuguesa que se preenchera de indivíduos instruídos e provenientes da burguesia, para consolidar o republicanismo e preparar a sua implementação em Portugal, também com os proveitos entretanto ganhos por eles no Brasil. Regressado a Portugal, Cunha e Costa publicou, no O Século, um grande número de artigos sobre tabaco, nos anos de 1904 e 1905. Apesar de eleito na Câmara Municipal republicana, em Lisboa, abandonou o Partido Republicano em 1911, aderindo à causa monárquica e colaborando em periódicos católicos. Não é de admirar, portanto, a intervenção acalorada deste edil acerca das cores da nova bandeira nacional.
Nessa sessão, o vereador começa por revelar a sua admiração pela introdução do verde, já que considera que, inicialmente, a comissão optara pelo branco e vermelho. Mas repudia o modo como a comissão eliminara a cor azul. Sobre esta, a comissão argumentou pela “acção nociva, dissolvente sobre o caracter portuguez, o depressivo marasmo, o servilismo resignado, a inercia imbecil da grande maioria da Sociedade Portugueza nos últimos 80 annos”. O azul era uma cor utilizada nas bandeiras de França, República Argentina, Chile, Confederação Australiana, Holanda, Suécia, Noruega, quaisquer destes países considerados pelo vereador como “modelos de virtudes cívicas”. Segundo Cunha e Costa:
“A Commissão adopta enthusiasticamente o vermelho, como a cor mais própria para exprimir a globulinea riqueza d’uma energia que se affirma ou de uma nação que desperta. Assim será. Infelizmente, ao lado da bandeira ingleza, onde aliaz o azul se acha representado, e das bandeiras da Suissa e da Dinamarca estas largamente cortadas por uma cruz, só tres nações hasteiam o pavilhão vermelho, o Egypto, a Turquia e o sultanato de Zanzibar. O pavilhão vermelho, inteiramente extreme dos symbolos, só ha o de Marrocos! Accentua a cicunstancia de ser a côr vermelha a do pavilhão real no antigo regimen e a côr verde o distinctivo da Casa de Bragança dethronada. Sem por forma alguma amesquinar o valor dos revolucionarios das jornadas de Outubro, nem esquecer a coragem civica dos que n’uma vida inteira de abnegação prepararam o advento da República, não deixará de dizer e sustentar que os actos de bravura e civismo n’esses dias praticados, dignos de toda a homenagem, não podem ter comparação com a epoca liberal que da legendaria Terceira vai até á convenção de Evora Monte atravez o [sic] cêrco do Porto. Foi pelas mãos do liberaes de 1820 e 1834 que os principios da democracia entraram na consciencia juridica do povo portuguez, há 80 annos”.
Cunha e Costa propôs que se desse à bandeira verde e vermelha honras excepcionais pelo papel que a República deveria ter na aproximação dos portugueses, mas que fosse nacional a bandeira azul e branca, por ter sido ela que acompanhara “os heroicos e generosos revolucionarios de 1820 e ainda ella a que desfraldaram os revolucionarios de 1829”. Seria esta, verdadeiramente, “a bandeira do povo e da liberdade”.
A bandeira verde e vermelha acabaria por vingar, definitivamente: rectangular (2:3), tal como as suas antecessoras, e bipartida nas cores fundamentais de verde e vermelho, ocupando o verde dois quintos da largura, do lado da tralha, e o vermelho os restantes três. Centrada na divisão, o brasão da República, constituído pelo escudo das armas nacionais, orlado de branco e assentado sobre a esfera armilar manuelina, em amarelo e avivada de negro, em referência à epopeia marítima portuguesa e à bravura, tenacidade, diplomacia e audácia dos portugueses. O diâmetro do brasão é igual a metade da altura da bandeira, ocupando metade da tralha e ficando equidistante das orlas, superior e inferior. Uma larga faixa carmesim, com sete castelos, simboliza a integridade e a independência nacional.
Segundo o parecer daquela comissão, o branco representaria a cor fraternal, em que todas as outras cores se fundem, cor de singeleza, de harmonia e de paz. A comissão defendeu que o vermelho figuraria como uma das cores fundamentais, por ser a cor combativa, quente, viril por excelência, cor da conquista, cor cantante, ardente, alegre, que lembra o sangue e incita à vitória. Em relação ao verde, para além de ser comummente associada à esperança, foi mais difícil a justificação da comissão, por ser uma cor sem tradição histórica, apenas baseada no argumento da consagração da revolta de 31 de Janeiro de 1891, a partir da qual o verde teria surgido no momento decisivo em que, “sob inflamada reverberação da bandeira revolucionária, o povo português fez chispar o relâmpago redentor da alvorada”.
Hoje em dia, não é raro encontrar versões simplificadas ou erradas da bandeira nacional, muitas vezes com incorrecções heráldicas, na representação do brasão, e cores trocadas ou deturpadas.

Lisboa Republicana

Na tarde de 5 de Outubro de 2010
O povo saíu à rua na Baixa de Lisboa!

República Centenária

À entrada desta noite, de 4 para 5 de Outubro, antes de um jantar do Grupo de Trabalho da Comissão Municipal para as Comemorações do Centenário da República e do espectáculo (pouco) dançante na Alameda, a presença gratificante na sessão de encerramento dos encontros "O Alentejo e a I República", na Casa do Alentejo, como representante da Câmara Municipal de Lisboa, onde pude encontrar o cantautor Francisco Naia (http://www.myspace.com/francisconaia), meu primo paterno por parte da família Tonicher (Tonicha) e actual presidente do Centro de Estudos Documentais do Alentejo (CEDA).
Deixo aqui o meu pequeno discurso:

«Em nome da Câmara Municipal de Lisboa e da Comissão para as Comemorações Municipais do Centenário da República, da qual faço parte, cumprimento os ilustres companheiros de mesa e todos os demais presentes.
Este lugar, tal como o conhecemos, nasceu na República e tem tido uma importância relevante para a cidade de Lisboa.
Foi neste edifício que, a partir de 1918, António Rodrigues da Silva Júnior – arquitecto não diplomado, republicano e maçon – traçou este ambiente neo-mourisco destinado a um dos primeiros – senão mesmo o primeiro – casino de Lisboa, inaugurado no ano seguinte.
Estávamos à entrada dos loucos anos 20, e de tanta loucura que na capital reinava, talvez o povo ou melhor os seus representantes se esqueceram de cuidar dessa Primeira República – de tão efémera que foi.
Mas também efémera foi esta casa de jogo e divertimento, que terminou em 1928, já denominada “Monumental Club”.
Seguiu-se-lhe uma vida nova: “Grémio Alentejano” em 1932 e, posteriormente “Casa do Alentejo”, sendo desde sempre uma das mais dinâmicas casas regionais de Lisboa.
Tem sido um postal turístico de Lisboa. Todos os dias são muitos turistas que aqui vêm, admirar as suas formas, apreciar a sua gastronomia. E, como tal, não podemos esquecer que no próximo ano perfazem 100 anos sobre a criação, pela primeira vez em Portugal, de uma Repartição de Turismo na orgânica do Estado, já republicano.
E, há que lembrá-lo, que em 1911 quem passou a tutelar pela primeira vez o Turismo foi o Ministro do Fomento, Brito Camacho, hoje justamente homenageado.
Em nome da Câmara Municipal de Lisboa e da Comissão Municipal para as Comemorações do Centenário da República, felicito a organização desta sessão e convido todos os presentes a participarem nas realizações que, à volta da República, decorrem em Lisboa e noutras que se inaugurarão nesta cidade, que se quer de todos os portugueses e de todos os alentejanos em particular e, portanto, genuinamente republicana.»

2010-10-01

Dia Nacional da Água - "Águas" da República

Hoje, Dia Nacional da Água, o dia começou com a viagem inaugural do autocarro da República, juntando elementos da Comissão Nacional e da Comissão Municipal, membros do executivo camarário e dirigentes e jornalistas. Esta primeira viagem, por pontos cruciais do movimento revolucionário de há 100 anos, foi guiada pelo professor António Reis, coordenador científico das Comemorações Municipal do Centenário da República. A acompanhar o visitante, existe um roteiro impresso com os locais do percurso.
A não perder, durante os próximos tempos! A partida faz-se na Rua do Comércio.

À entrada da noite, estivemos na inauguração da exposição "Silva Monteiro. Desenho Humorístico n'Os Ridículos 1908-1926", no Museu Bordalo Pinheiro. Mete água um dos notáveis desenhos deste desenhador-caricaturista que foi muito popular na I República. Traçando a tinta-da-china e aguada sobre papel vegetal, retrata os "Três Dissolvidos! (É o Dissolves!)", publicado na capa de Os Ridículos, de 2 de Abril de 1919. Na época, os partidos Evolucionista, Unionista e Democrático, representados pelos seus líderes, quando dissolvidos, nunca o chegaram a ser, nem mesmo "em água a ferver".
Excelente percurso expositivo, acompanhado por imperdível catálogo. Outro mais a juntar à colecção de publicações que o nosso Grupo de Trabalho para as Comemorações Municipais do Centenário da República tem produzido, num ensinamento para outras realizações, de como o entusiasmo de um grupo coeso e dedicadamente responsável à causa profissional, sem que isso represente muitos recursos financeiros, pode deixar um lastro de conhecimento para o futuro acerca de uma época histórica marcada por feitos positivos e outros nem tanto.
Nos próximos dias, há mais República!

2010-09-27

Dia Mundial do Turismo

Imagem: "Indian Summer", Zoltán Balogh

Sob o lema "Turismo e Biodiversidade", a Organização Mundial do Turismo promoveu um concurso de fotografia, cujos resultados estão acessíveis em: http://www.unwto.org/worldtourismday/photocompetition/winners.php?lang=E.
Esta é a imagem vencedora e, também, a nossa selecção, para registarmos, hoje, o Dia Mundial do Turismo, em torno de um tema verdadeiramente pertinente: a necessidade de bem articular o Turismo com a Biodiversidade do Planeta.

2010-09-23

O Dia do Mar

Imagem: a nova ZEE portuguesa.

Hoje é Dia do Mar. Portugal, primeiro país do mundo com jurisdição para lá das 200 milhas náuticas, pode vir a ser uma grande potência mundial marítima. Importa registar a sequência evolutiva desta questão.
A 10 de Dezembro de 1982, em Montego Bay, Jamaica, foi assinada a Convenção das Nações Unidas sobre o Direito do Mar (CNUDM), com o objectivo de criar um regime jurídico relativo ao mar. Esta Convenção introduziu ainda alterações aos critérios até então em vigor na delimitação e jurisdição sobre a plataforma continental de cada um dos Estados costeiros, consagrando a possibilidade da sua extensão para além das 200 milhas.
Ao abrigo desta Convenção, criou-se uma estrutura de missão denominada "Estrutura de Missão para a Extensão da Plataforma Continental", com o objectivo de investigar e apresentar uma proposta de delimitação da plataforma continental de Portugal, para além dos limites actuais das 200 milhas náuticas.
Um dos objectivos daquela estrutura é o de "Conhecer as características geológicas e hidrográficas do fundo submarino ao largo de modo a poder vir a fundamentar a pretensão de Portugal em alargar os limites da sua plataforma continental para além das 200 milhas náuticas. Os projectos da Extensão da Plataforma Continental apresentam dados hidrográficos, geológicos e geofísicos, que revelam a quantidade extraordinária de recursos que se encontram imersos e que permitem reclamar a aquisição de novos territórios imersos.
No dia 11 de Maio de 2009, Portugal depositou na sede das Nações Unidas, a sua proposta de extensão da plataforma continental de mais de 2 milhões de metros quadrados, além das 200 milhas da Zona Económica Exclusiva (ZEE).
Na plataforma continental alargada os países apenas terão jurisdição sobre os recursos do solo e subsolo, como petróleo, gás, metais ou recursos biológicos e genéticos, ficando de fora a exploração de recursos na coluna de água.
A deliberação sobre a proposta portuguesa deverá ser conhecida no final de 2011.
Será que só assim podemos ser um país grande?
Mas o Dia do Mar também é o segundo livro de Sophia de Mello Breyner Andersen, publicado em 1947. O livro baseia-se no tempo recuperado da infância, na qual a autora recupera as vozes das coisas. Os conceitos do mar, da praia, da casa e do jardim servem a autora para a busca da perfeição, pureza e harmonia. O mar é aqui a fonte da purificação e lugar onde tudo adquire sentido.
Inspiremo-nos em Sophia, para fazer grande este país!

2010-09-06

Igreja de Nossa Senhora do Pópulo: a Igreja das Termas

Imagem: foto tirada do interior da torre sineira da Igreja de Nossa Senhora do Pópulo, Caldas da Rainha, Jorge Mangorrinha

Há 100 anos, a 23 de Junho de 1910, foi publicado no Diário do Governo o decreto de 16 desse mês que classificou a Igreja de Nossa Senhora do Pópulo, das Caldas da Rainha, como Monumento Nacional. É uma efeméride que, um século depois, merecia ter sido assinalada pelas autoridades e associações locais.
A Igreja do Pópulo, como comummente é designada, é o mais evidente vestígio do empreendimento aqui realizado a partir do final do século XV. Em 1495, obteve-se a autorização papal para sagrar uma capela junto ao hospital termal, para dois anos depois os doentes serem autorizados a frequentá-la, acedendo-lhe através de um corredor interno do hospital. Data de 1500 a conclusão das obras principais e de 1508 o término da torre.
Este edifício inscreve-se no ciclo pré-manuelino, salientando-se notavelmente a nave única coberta por abóbada de artesões, a capela-mor com abóbada de nervuras dela separada por arco triunfal policêntrico, os frontais de azulejos quinhentistas, os painéis azulejares seiscentistas, a pia baptismal, de planta octogonal, em forma de cálice e profusamente rendilhada, e o recorte das aberturas sineiras da torre.
A este propósito, direi que classificar património é relevar em cada território os elementos específicos, resultantes da história da sua ocupação humana através dos tempos, capazes de, devidamente investigados e interpretados, constituir um núcleo aglutinador de uma ideia de identidade local, sendo que em muitos casos essa dimensão histórico-cultural atinge importância nacional ou mesmo universal.
Existe indubitavelmente nas Caldas da Rainha um território patrimonial marcadamente identitário, que foi motor de desenvolvimento na História e é referência permanente de uma visão de futuro. Esse património gravita à volta do Conjunto Termal, constituído essencialmente - para além da Igreja - pelo Hospital, pela Mata e pelo Parque.
Mas - dizemos nós - compete aos agentes não obstaculizarem este tipo de processos. Caso contrário, não estão a participar na protecção do património cultural com o ordenamento do território e o desenvolvimento sustentável das comunidades, tendo em conta a recente evolução do direito do ordenamento do território, da urbanização e edificação e da reabilitação urbana.
É que nestes processos o Estado não é só o Ministério da Cultura. Também outros organismos ministeriais, como a Saúde, ou as autarquias têm o dever de, pelo menos, apoiar o justo reconhecimento do valor patrimonial de bens culturais, que é um factor de competitividade cada vez mais integrado na economia das nações e das cidades.

2010-08-12

Há 20 Anos, um Mar de Esperança

Imagem: Dmitriy Shostakovitch, official postcard

Hoje é o Dia Internacional da Juventude. A este propósito, é bom lembrar o primeiro dos grandes projectos comemorativos dos Descobrimentos Portugueses, que foi lançado, há 20 anos, pela Comissão Nacional para as Comemorações dos Descobrimentos Portugueses, desafiando as autarquias portuguesas a realizarem um concurso literário entre os jovens até aos 25 anos. O objectivo foi juntar no “Cruzeiro Europa Jovem” um representante de cada concelho, através do concurso subordinado ao tema “Descobre a Tua Terra”, também a propósito do Ano Europeu do Turismo. Tive o grato prazer de ter sido escolhido como representante das Caldas da Rainha, para uma memorável viagem de partilha dos aspectos que uniam os jovens portugueses nesse tempo.
Eu acabara no Verão desse ano o curso de Arquitectura. Concorrera com um texto onde propunha um percurso pelos aspectos históricos e culturais do centro urbano das Caldas, captando o pormenor ou chamando a atenção para as praças e as ruas, nunca deixando de referir os actores principais da urbanidade, que são afinal as pessoas que melhor traduzem a história e a vida de um lugar. Já nessa altura, este centro urbano era questionado acerca das suas memórias versus novas intervenções.
O "Cruzeiro Europa Jovem" reuniu, de 22 a 28 de Agosto de 1990, mais de 300 jovens do continente e ilhas, bem como convidados que representaram as associações juvenis e as juventudes partidárias. A viagem decorreu a bordo do paquete soviético Dmitriy Shostakovich, cuja tripulação era originária daquele pais, num mundo estranho e desafiante no meio do mar, entre Lisboa, Casablanca, Las Palmas e Funchal.
O nome provém do compositor russo (1906-1975) que apesar de trabalhar para o governo estalinista sofreu deste a opressão e diversas tentativas de censura, continuando a lutar pela independência artística até ao fim da sua vida. Sem dúvida, um bom tónico para nós que tínhamos alcançado, por via das artes da escrita, este cruzeiro e esta viagem.
No cais da Rocha do Conde de Óbidos, à partida, as famílias juntaram-se. Vinham de todos os lados do país para assim se despedirem daqueles para os quais, certamente numa grande parte, era a sua primeira grande viagem, a viagem inaugural e iniciática de umas quantas coisas. A primeira imagem, logo após a entrada no navio, era a que nos juntava nos varandins, acenando, quais tropas viajando para as ex-colónias, mas com diferenças: em vez da guerra, a folia, e o “adeus até ao meu regresso” era daí a uma semana.
Logo que o navio descolou, outro ritmo de vida começou. Difícil era estar em todo o lado: a discoteca, o salão de dança, os debates, o cinema, os jogos, o exterior a ver-o-mar e as estrelas ou a dar um mergulho na piscina. Tudo menos a dormir, porque o tempo convidava a muito do novo que esta experiência permitia. As noites eram sempre longas.
Havia o perigo de os painéis de reflexão e debate poderem vir a ser pouco frequentados, mas não. Os temas para os jovens, oriundos de um país, todo ele, ali representado, eram suficientemente interessantes: os Descobrimentos, a Europa, a política e o futuro de Portugal. Lembro que, nos debates de há 20 anos, foram postas questões que revelaram preocupações que acabariam por se concretizar: “O que é que nos vai acontecer em termos profissionais, quando em 1993 se abolirem as fronteiras europeias? Precisaremos depois de emigrar para arranjar emprego? Será que os jovens vão ser ouvidos? O que é afinal a política?”
O mundo hoje em dia é diferente, mais global, e os interesses mudaram, o que por si só faz perigar os níveis de participação cidadã e pública. Esta mudança acaba até por fazer esquecer os problemas de há duas décadas, por exemplo as manifestações de jovens contra as políticas governamentais, nomeadamente na área da educação.
Entretanto, muitos dos participantes talvez já tenham tido alguma experiência política; eu, por mim, já tenho a minha conta, não sei se por agora, ou definitivamente, porque a política é mesmo a arte efémera.
Confesso que também a memória já se me escapa de pormenores sobre a experiência de há 20 anos no alto mar, dado que a vida tem dado muita volta. Consta que havia um padre a bordo, mas não dei por ele, ou pelo menos já dele me não lembro. Reza noutras crónicas que afirmou que, passada uma década, a humanidade estaria muito mais equilibrada. Mas passaram duas e acho que não.
As escalas deste cruzeiro serviram para conhecer ou reconhecer as cidades do itinerário. O porto e os cheiros de Casablanca, as ruas hispânicas de Las Palmas, a exuberância do Funchal, de que a chegada por mar ainda hoje se tornou inesquecível, apesar de previamente termos passado um troço de mar bastante ondulante que nos fez indispostos a todos. A chegada a Lisboa foi antes das 7 da manhã, depois de uma noite quase sem pregar olho, se bem me lembro! O Sol nasceu, quando se vislumbrou a terra, onde nos esperava quem estivera no primeiro dia.
Este cruzeiro foi essencialmente virado para dentro, para as pessoas que se conheceram e conviveram durante uma semana, como se não mais a vivêssemos, assim, ou jamais nos pudéssemos voltar a ver.

Assim foi, até hoje!

12 de Agosto de 2010
Dia Internacional da Juventude

2010-05-12

A Institucionalização do Turismo em Portugal

Imagem: A Rua do Ouro, em Lisboa, engalanada e plena de congressistas em passeio, no dia da inauguração do IV Congresso Internacional de Turismo, em 12 de Maio de 1911

Faz hoje 99 anos que se iniciou o memorável IV Congresso Internacional de Turismo, o maior alguma vez realizado em Portugal à volta desta temática, com a presença de quase 1500 congressistas de diferentes países. Queremos que daqui a um ano, precisamente, estejamos a celebrar o Centenário da institucionalização do Turismo em Portugal.
De facto, em 12 de Maio, foram abertos, com solenidade, os trabalhos do Congresso, e foi desde logo aventada, pelos organizadores e pelo novo Governo republicano, a necessidade de criação, em Portugal, de um organismo oficial de Turismo. A 16 de Maio, o Governo decretaria então que, no Ministério do Fomento, passasse a funcionar um Conselho de Turismo, coadjuvado por uma Repartição de Turismo.
Também as estâncias termais beneficiariam com esta decisão da I República portuguesa: a moda das termas e o plano do Estoril em particular.

2010-05-08

"O Problema de Turismo"

Imagem: "O Problema de Turismo", caricatura de Emmérico Nunes, pormenor de ABC a rir, Abril de 1921

Decorreu ontem e hoje, no salão nobre dos Paços do Concelho de Lisboa, o Colóquio Nacional “A Vida Cultural na Lisboa Republicana (1910-1926)”, no âmbito das comemorações municipais do Centenário da República. Fui orador com "A Cidade, os Lisboetas e os Viajantes: a Cultura na perspectiva do Turismo durante a I República (Lisboa e os Guias Turísticos)”.
Curiosamente naquele tempo alguns dos problemas da sociedade eram semelhantes aos de hoje.
Em 1921, Emmérico Nunes desenha um passageiro de comboio procedendo contra os princípios de urbanidade e instrução cívica, bem expressos nas recomendações escritas na própria carruagem: é proibido cuspir, escarrar e pôr os pés nos assentos. Pelos vistos, atitudes comuns, pouco abonatórios para a melhoria do problema do turismo em Portugal.

2010-05-03

"O Jogo da Política Moderna"

Hoje, segunda-feira, nos Paços do Concelho de Lisboa:


2010-04-25

Águas Turvas (2) : Os Adesivos

Imagem: “A Politica, a Grande Porca”, desenho de Rafael Bordalo Pinheiro (in A Paródia, 1900)

Em qualquer regime político ou mudança governativa há-os os heróis e os adesivos. Os heróis são quem congemina a diferença e a mudança, quem avança corajosamente, se for preciso. Os adesivos, por seu turno, são um espécime humano de oportunistas, egoístas e racionalistas na conquista de poder e mais-valias pessoais.
Já no fim da Monarquia, quando o regime parlamentar se degradava eticamente, Bordalo desenhou a Política como “a grande porca”, criticando os partidos e os políticos através da caricatura e do ridículo.
Depois, em 1910, houve um caso curioso: quem anunciou a República do alto da varanda municipal, espécie de bastão oficial da proclamação, foram os políticos, mas quem efectivamente avançara pela avenida abaixo rumo à Baixa de Lisboa tinham sido os republicanos revolucionários, liderados por Machado Santos que não teria os mais cargos na República e acabaria morto, em 1921, depois de lutar em defesa do regime contra a investida monárquica e sendo vítima das forças revolucionárias que tão longamente cultivara. Em 1910 os profissionais da política souberam o que era “melhor” para o povo e deles surgiu um banho de adesivos, qual nuvem de vorazes gafanhotos.
Os adesivos são uma constante realidade na história política portuguesa, tanto nos últimos anos da Monarquia e na implantação da República, como também na conquista da Liberdade, há 36 anos, e na partidarização actual da política.
No 25 de Abril Salgueiro Maia foi o Machado dos Santos da República. E, hoje em dia, ei-los – os novos adesivos – sempre presentes junto a um novo líder de partido, à espera de um lugar ao sol, praticando a subserviência, tão suficiente para singrar, em vez do mérito profissional e do currículo pessoal, como que culto de uma "tradição adesiva”.
Os adesivos da política à portuguesa são o pior dela e, verdadeiramente, os coveiros do país.

Águas Livres

Imagem: Gravura do Aqueduto das Águas Livres, Lisboa

Classificado como monumento nacional, é um dos mais extensos sistemas de abastecimento de água existentes no mundo, alcançando os 58 quilómetros; o seu nome deve-se ao facto de as águas correrem apenas pela força da gravidade, isto é, livremente.
O Aqueduto das Águas Livres, hoje desactivado, foi mandado construir pelo rei D. João V, a fim de fornecer água a Lisboa, de acordo com o projecto de engenheiro Manuel da Maia, tendo abastecido a cidade a partir de 1748, mas só concluído em 1834.
Mas foi ainda em 1571 que Francisco de Holanda propusera ao rei D. Sebastião a reconstrução de um aqueduto e da antiga barragem romana de Olissipo, para garantir o abastecimento de água à capital. Seria, contudo, em pleno século XVIII que se decidiu avançar com a sua construção, tendo sido os seus custos integralmente suportados pela população de Lisboa, através de taxas que incidiam sobre a carne, o azeite e o vinho.
O Aqueduto possui, na sua parte mais monumental, um conjunto de 35 arcos, de autoria do arquitecto Custódio Vieira, sobre o Vale de Alcântara, onde se destaca o maior arco de vão do mundo em alvenaria de pedra, com 65 metros de altura e 32 de abertura.
A galeria interior tem dois corredores (Passeio dos Arcos), pelos quais se podia caminhar e desfrutar da vista panorâmica em redor, porém o elevado número de suicídios e assassinatos levou a que a partir de 1844 fechasse ao público. Actualmente, o Museu da Água, que tutela o aqueduto, organiza visitas e passeios em datas e horas que variam consoante as estações.
Na minha opinião, é este o monumento que Lisboa deve candidatar a património mundial da humanidade, e não a Baixa Pombalina, esta já fortemente descaracterizada e de gestão muito difícil no quadro do património da UNESCO. Para além das suas características formais singulares, o Aqueduto tem o valor excepcional de ter sido suportado financeiramente pela população, inclusivamente quando o país possuía bons recursos vindos da riqueza do Brasil.
Neste Dia da Liberdade, é justo lembrar que, nos grandes feitos de um país, está sempre a generosidade do seu povo. Há dois séculos e meio, tal como há 36 anos.

2010-04-23

Mar Português

Hoje, Dia Mundial do Livro: Portugal também se cumpre, defendendo os seus recursos naturais e, com eles, ganhar novos desafios de futuro.

Mar Português
(Mensagem, de Fernando Pessoa)

Deus quer, o homem sonha, a obra nasce.
Deus quis que a terra fosse toda uma,
Que o mar unisse, já não separasse.
Sagrou-te, e foste desvendando a espuma,
E a orla branca foi de ilha em continente,
Clareou, correndo, até ao fim do mundo,
E viu-se a terra inteira, de repente,
Surgir, redonda, do azul profundo.
Quem te sagrou criou-te português.
Do mar e nós em ti nos deu sinal.
Cumpriu-se o Mar, e o Império se desfez.
Senhor, falta cumprir-se Portugal!

2010-04-22

Um Mês com as Águas

Do dia 22 de Março (Dia Mundial da Água) ao dia de hoje, 22 de Abril (Dia Mundial da Terra), há um mês que navegamos ao encontro de todas as águas. Obrigado pelas palavras de felicitações dos seguidores, registados e não registados, de dentro e fora de Portugal. Este espaço é nosso e, tal como as águas, não tem fronteiras.

2010-04-18

Monumentos e Sítios

Imagem: cartaz do Dia Internacional dos Monumentos e Sítios, 2010, IGESPAR

Comemorou-se o Dia Internacional dos Monumentos e Sítios, este ano dedicado a “Património Rural e Paisagens Culturais”, o lema do IGESPAR para assinalar este dia, seguindo a directiva proposta pelo ICOMOS, que elegeu, para 2010, o património associado à actividade agrícola. Este tema tem em conta que esta actividade testemunha, há milénios, a evolução das sociedades humanas, os seus ambientes naturais, as culturas e paisagens, assim como tem conduzido à transformação gradual de espaços naturais e áreas selvagens, através da aplicação de conhecimentos tradicionais e científicos.
Por exemplo, no tema central deste nosso blog, sei que o dia foi particularmente dedicado aos moinhos de água, em Montaria (Viana do Castelo), com caminhada pelas “Paisagens de Água”, a projecção de um filme, a visita ao renovado Moinho da Costa e a abertura do novo Núcleo Museológico dos Moinhos de Água da Montaria. E também em Bemposta (Mogadouro), nos Trilhos do Azeite e do Pão, a visita foi sobre a arquitectura vernacular dos moinhos de água. Em Alvaiázere, houve a recriação de algumas actividades da tradição rural e moagem de cereais no moinho de água do Carregal, excelente exemplar do património molinológico, recentemente recuperado pela Junta da Freguesia de Maçãs de Caminho. Em Celorico da Beira, houve uma visita guiada ao Moinho da Rapa, pequeno núcleo interpretativo que procura dar a conhecer aos seus visitantes as funcionalidades de um moinho de água e a sua importância numa economia rural e agrícola.
Noutros locais e patrimónios, também se esteve em sintonia com a água.
Em Tomar, os Percursos de Água levaram os visitantes ao Aqueduto do Convento e às suas nascentes. Em Coruche, a visita foi pelo Percurso da Água Doce (Anta de Vale Beiró, Anta Grande do Caminho da Fanica e Anta Pequena do Caminho da Fanica). Em Avis, houve o lançamento de um novo percurso de água, 6.º percurso do Roteiro Artístico do concelho. Foram, também, contemplados, como propostas de visita, fontes e bebedouros da vila. E ainda engenhos flutuantes, com base em materiais reciclados, recriando-se alguns objectos que lembram engenhos hídricos ou sistemas que sirvam de apoio à captação de água, flutuação ou submersão. Na Aldeia da Luz (Mourão), o percurso Museu-Terra-Água foi uma visita guiada seguida de um percurso pela envolvente, onde se apreciaram os elementos sobreviventes da paisagem desaparecida e a nova realidade marcada pelo lago de Alqueva, através de um passeio de veleiro. E, em Lisboa, a viagem foi a Alfama, sob o signo da água e do escritor Almeida Garrett. E ainda visitas à Mãe-d’Água das Amoreiras.
Mas, como acontece por vezes ao fim-de-semana, Alcobaça foi o meu (o nosso) destino de hoje, terra de património, ruralidade e união de rios sob o peso majestático do seu Mosteiro. A cidade estava preenchida de jovens, no âmbito da VIII Jornada Diocesana da Juventude, para ouvirem o Cardeal Patriarca, num discurso no antigo refeitório dos Monges. Mas, o que vi sobre aquela comemoração de hoje foi um apontamento, no exterior do Mosteiro, de diversas actividades sócio-educativas, promovidas pelo Serviço Educativo deste monumento, em colaboração com a Quinta Eco-pedagógica “Pequena Terra”. O programa prometia expositores animados com actividades, à volta da agricultura biológica, das energias alternativas, da reciclagem, do Bird Wathching, dos animais de Quinta, passeios de burro, jogos ecológicos e tradicionais.
Pouca participação, nos minutos que por lá passei, mas apesar disso, pelo que sei, mais do que no vizinho concelho das Caldas da Rainha, terra de águas... mornas!
De seguida, espreitei pelos vidros do Armazém das Artes (fechado) e um olhar guloso pela doçaria da Alcoa, para me deliciar, depois, com mais um almoço no restaurante de sempre, o Trindade, que recomendo a quem desconhece.

2010-04-14

A Bica

Imagem: "Fernando Pessoa", 1954, pintura, inicialmente denominada "Lendo Orpheu", de Almada Negreiros para o Restaurante Irmãos Unidos

A bica de café é hoje celebrada, no Dia Mundial do Café. E o café não dispensa a água.
Em Portugal, em média cada residente consome pouco mais de quatro quilogramas de café por ano, segundo dados da Organização Internacional de Café (OIC). A média europeia é de cerca de seis quilogramas por ano, ou seja, os portugueses bebem em média entre uma a duas chávenas de café por dia, e a maior parte fá-lo fora de casa.
O café tem benefícios e malefícios, neste caso se bebido em excesso. Sobre os primeiros, dizem-me que está cientificamente provado o benefício da cafeína e do consumo de café em situações de Alzheimer, Parkinson e depressão. Mas em excesso pode trazer problemas para o sistema cardíaco e aparelho digestivo, designadamente intoxicação por dose excessiva de cafeína.
O café é a substância psicoactiva mais consumida no mundo. Uma bica tem cerca de 40 mg de cafeína e não merece problema, se for consumido com ou depois de refeição mais ou menos ligeira.
A bica é pretexto de encontro de amigos e um dos prazeres mais permanentes durante os 365 dias dos seus consumidores, actualmente quase em qualquer lugar e antigamente naqueles magníficos estabelecimentos das cidades e das vilas deste país, que popularmente tomaram o nome do seu produto mais consumido. Os cafés das nossas memórias têm desaparecido, como mais um património delapidado pela incúria ou sensibilidade dos homens.
No quadro de Almada, Fernando Pessoa está sentado numa mesa de café e, diante de si, sobre a mesa, tem os dois números da Orpheu, uma bica e um recipiente de açúcar. Eu sempre desconfiei que faltava algo neste quadro. É o copo de água!

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